14 de junho de 2013Artigos, Destaques 4 comentários
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I – Introdução

Em meados de fevereiro de 2013, este blog recebeu mensagem de Odila Conceição do Nascimento relatando como havia conhecido Frei Cosme. Ela tinha 8 anos de idade e acompanhava seu pai que fôra à igreja do Valongo, para tratar dos detalhes da admissão do irmão Odair Ferreira do Nascimento, no Seminário Frei Galvão, na cidade de Guaratinguetá/SP. Completando, Odila também registrava ser prima do Amigo n.º 16, Oscar Laragnoit Veiga, solicitando a gentileza de conexão com o parente cujo contato perdera havia muito tempo.

Em rápida troca de telefonemas e e-mails foi pavimentado o caminho para a divulgação de mais um emocionante exemplo de vida, em parte influenciado pelo apóstolo franciscano do Valongo.

A seguir relembram-se os principais eventos da curta e trágica biografia do Odair, um dos mais complexos e paradoxais ex-seminaristas de Frei Cosme.

Odila, a irmã três anos mais nova, será a condutora central da narrativa, em depoimento complementado por documentos diversos, notícias de jornais, bem como informações variadas de parentes, colegas e amigos.

 

II – Pais e Irmãos

O pai alagoano, Olívio José do Nascimento, veio ao mundo em 1911, vivendo até os 10 anos com um casal de idosos que pouco dispunham para a própria subsistência. Com essa idade conheceu a mãe biológica e com ela foi morar. Em seguida foi matriculado na escola, mas os estudos foram interrompidos antes do final do primeiro ano e pararam por aí. O pai ele nem chegou a conhecer. Em 1932 migrou para São Paulo e logo estava engrossando o contingente paulista, na Revolução Constitucionalista que acabara de eclodir.

A mãe, Luzia Conceição (Laragnoit Leite) do Nascimento, nascida em 1922, perdeu sua progenitora com apenas 19 dias de vida, ficando aos cuidados de uma tia até a idade de um ano e meio. Aí o pai viúvo foi buscá-la e dela cuidou até o casamento com Olívio José, em 1942. O matrimônio durou mais de 54 anos até o falecimento do marido.

Ambos, muito católicos, criaram os filhos com forte base religiosa. Acontece que, às sequelas individuais de seus dramas familiares, ainda tiveram de somar as dificuldades de todo o tipo, vividas no próprio casamento.

Neste ponto do depoimento, Odila tenta resumir, o que tanto ela como outros dos irmãos podem ter confusamente interpretado em vários momentos como excesso de rigor, severidade ou até carência afetiva: “Depois de adultos e já experientes, sentimos que fomos muito amados, mas do jeito que eles sabiam amar, sempre procurando incentivar e estimular os filhos a estudarem.

O casal combinou que todos os nomes da planejada filharada deveriam começar com “O” e ter cinco letras. Quando acabaram as nomeações quíntuplas, colocaram quatro e seis letras. A prole chegou a 10: Oscar, Odair, Odila, Olavo, Odete, Olinda, Olga, Olívia, Osmar e Odilon. Os dois primeiros nasceram em Santos, os seguintes em São Vicente e do 7º ao 10º, no sul de Minas Gerais.

 

III – Frei Cosme e os Seminários

1957: Seminário de Agudos/SP

1957: Seminário de Agudos/SP
Odair é o primeiro à direita, em dia de visita
de familiares do amigo ''Juninho'',
ao seu lado.

As relações de Frei Cosme com os Nascimento se entrelaçavam com outros ramos da família como os Laragnoit/Leite.

Odila e o irmão mais velho Oscar acreditam que a grande patrocinadora dos relacionamentos interfamiliares com o frade franciscano, tenha sido a Tia Maria, mãe de Oscar Laragnoit Veiga (Amigo n.º 16).

Assim, entre os numerosos meninos da grande família, o frei recrutou primeiramente vários coroinhas para ajudarem nas missas. O objetivo maior, porém, era a seleção dos eleitos a enviar para os seminários. A década de 1950 e os primeiros anos da seguinte constituíram-se no período mais expressivo, no encaminhamento de dezenas de jovens para os seminários franciscanos. Em 1956 o Livro de Crônicas do Convento do Valongo, em Santos, registra que: “Graças aos esforços do Revmo. Frei Cosme Ballmes, este ano foram mais 15 alunos para o seminário.

Por essa época as famílias Nascimento / Laragnoit / Leite entregaram aos cuidados de Frei Cosme, quatro de seus meninos, para que fossem encaminhados ao seminário: Os irmãos Oscar e Odair, juntamente com os primos Veiga e José Modesto. Oscar, irmão mais velho do Odair não se adaptou à rigidez da disciplina e dos estudos, voltando para casa já no primeiro ano em Guaratinguetá. Os outros três continuaram juntos por vários anos, tanto no Seminário de Frei Galvão, vizinho à cidade de Aparecida, como no de Santo Antônio, em Agudos, perto de Bauru.

Frei Cosme de todos cuidou e a todos orientou com desvelo. Antes, durante e após a saída dos seminários.

1957: Seminário de Santo Antônio em Agudos/SP

1957: Seminário de Santo Antônio em Agudos/SP

Ao centro, Odair, acompanhando visita de familiares do colega de classe "Juninho", ao seu lado, de óculos.

1960: Agudos/SP - Formatura curso ginasial

1960: Agudos/SP - Formatura curso ginasial
- Primeira fila (frente): Odair é o 3º da esquerda para a direita. Ao seu lado, de terno claro, o amigo ''Juninho''.
- Penúltima fila (fundo): O 1º da direita é o amigo "Albanão" ou "Zezão".

No caso particular do Odair, este saiu de Agudos, no final de 1962, certo de sua falta de vocação para o sacerdócio. A partir daí, várias sequências de profundas mudanças circunstanciais de vida, provocaram o distanciamento paulatino do mentor e amigo Frei Cosme.

Iniciando a nova jornada, o recém ex-seminarista, foi morar no Pari, em São Paulo, na casa dos tios Geraldo Benedetti e Nathalia Laragnoit. Concluiu o curso Clássico e passou rapidamente por alguns empregos. No princípio de 1965, aprovado nos vestibulares de três universidades, optou pela USP, indo a seguir residir no CRUSP (Conjunto Residencial da USP), Bloco E, apartamento 509, em meio a mais de mil e duzentos outros estudantes moradores.

 

IV – Repressão e Clandestinidade

Recém-saído do Seminário

Recém-saído do Seminário

Logo depois de se matricular na USP, para as primeiras disciplinas básicas do Curso de Pedagogia, Odair, que já vinha atuando como professor, ingressou também no Banco Comércio e Indústria de São Paulo, dando expediente na matriz, à Rua XV de Novembro. Na sequência associou-se ao Sindicato dos Bancários.

Como arremate aos malabarismos para conciliar a vida de estudante, professor, bancário, militante sindical e líder estudantil ativo em passeatas de barulho crescente, o sempre discreto Odair ainda encontrava tempo prioritário, para ordenar as bases do que poderia ser o grande projeto político de sua vida.

No CRUSP, junto com novos outros companheiros de ideologia comunista / trotskista, organizava-se para questionar, bem como enfrentar as autoridades universitárias e, por extensão, todo o aparato de repressão da ditadura militar, ainda em seus anos iniciais de estruturação.

Na vida familiar a convivência ficara facilitada, pois os pais, junto com o numeroso núcleo de filhos, residiam agora na vizinha cidade de Osasco. Isto permitia que o Odair os visitasse, ao menos uma vez por mês, sempre ajudando na difícil tarefa de suprir as necessidades de todos.

Como professor na escola estadual de Osasco/SP

Como professor na escola estadual de Osasco/SP

Odila lembra que nesses dias que o irmão passava com a família, sempre o via lendo algum livro. E destaca: “Desde menino ele era muito tímido e calado, embora tivesse um lado brincalhão ao divertir os irmãos, contando histórias, piadas e charadas.

Quase nada sabiam da vida de militância ou ideologia política que o jovem estudante da USP levava. Alguns “segredos” como o fato de ter sido preso e sua condição de comunista trotskista só começaram a vir à tona, após sua morte.

Não era para menos, pois o Odair devia tomar todos os cuidados exigidos pelo detalhado manual que orientava as atividades clandestinas dos estudantes comunistas. As contestações e confusões provocadas pelos universitários da USP e outras escolas, naquele início de regime militar, ainda eram castigadas com suspensões ou expulsões da Universidade, às vezes até com golpes de cassetete ou palmatória. Em alguns cantos menos visíveis, no entanto, as forças de repressão já começavam também a experimentar os instrumentos para outros tipos mais radicais e violentos de punição.

 

V – Acidente e Morte

Os últimos meses da vida do Odair transcorreram em meio às grandes confusões provocadas pelos estudantes da capital paulista, em reação à repressão crescente do regime militar.

Registros e fotos desses acontecimentos podem ser conferidos nos jornais e mídias da época.

Já os derradeiros dias, do agora menos pacato ex-seminarista, embalado pelos sonhos de lutas socialistas, têm o início de sua cronologia, num final de semana festivo em família, assim relatado pela Odila, a terceira dos dez irmãos Nascimento:

“Vi o Odair, em vida, pela última vez, em 27 de agosto de 1967, durante uma das visitas que ele fazia à família. Foi no aniversário do Juca, o José Modesto Leite, primo e colega de seminário. Passamos a tarde juntos, a família do Juca e a nossa.

Dois dias depois, 29 de agosto, terça-feira, o Reitor da USP suspendeu por 15 dias nove alunos, fichados pelo DOPS e responsabilizados pelas depredações ocorridas no CRUSP. O Odair entre eles.

Quinta-feira, 31 de agosto: O Odair, junto com mais dois estudantes, Cora e Dilson, depois de participarem de uma reunião ou assembleia, não lembro direito, creio que no CRUSP, saíram juntos, à noite, para comer no Frajola, na Avenida Vital Brasil, pertinho da Cidade Universitária.

Na volta, madrugada de 1º de setembro, o carro em que eles estavam, um Fusca, foi batido por trás, por uma jamanta, na Praça Portugal, cruzamento da Avenida Rebouças com Avenida Brasil. O carro, emprestado, era dirigido pela Cora, com o Dilson no banco do carona. Odair ia atrás. Após o impacto a Cora primeiro providenciou a busca de socorro para Odair, caído no banco de trás, para depois ir à Delegacia fazer a ocorrência. Tanto ela como o Dilson sofreram apenas arranhões leves.

Devo dizer que estes detalhes sobre o acidente me foram relatados pela Cora e seu pai, Sr. Pedro Sacomani, funcionário graduado do Bradesco, moradores na Cidade de Deus, perto de nossa casa. Com o Dilson nunca tivemos contato. A Cora nos contou que ele era de Santos.

Fomos informados sobre o acidente, dois dias após a ocorrência. O Hospital das Clínicas, onde o Odair estava internado, em coma, não tinha nosso endereço, visto que o paciente morava no CRUSP. Para piorar também não tínhamos telefone. Foi um antigo colega da COBRASMA onde eu havia trabalhado e saído de lá há pouco tempo, que veio me avisar, na casa de minha amiga Marlene, pois ele não sabia onde eu morava. Acabou me acompanhando até nossa casa, para dar a notícia aos meus pais.

Mamãe caiu em pranto compulsivo, quando ele começou a falar. A seguir fomos para o Hospital das Clínicas de São Paulo, diretamente para a UTI. Não pudemos ver o Odair de imediato. Passaram-se mais uns dias para termos autorização de vê-lo. No local havia uns oito pacientes, todos aparentemente em estado de coma. Meu irmão estava com uma das pernas enfaixada, suspensa. Soubemos que ele sofrera traumatismo craniano e tinha fraturado a clavícula e o fêmur. Foi a única vez que o vimos no hospital.

Mamãe não arredava pé do Hospital das Clínicas. Ficava na entrada do Pronto Socorro o tempo todo, aguardando notícias e a oportunidade de ver o filho, acidentado. Ela só voltou para casa na noite de 7 de setembro, após muita insistência do Sr. Pedro, pai da Cora, totalmente exausta, após dias sem comer e dormir direito. Eu ajudei aquele atencioso homem a convencer mamãe a ir com ele para casa e que no dia seguinte voltaríamos para o HC. Fomos para Osasco no carro dele.

Na manhã seguinte, 8 de setembro, pelas oito da manhã, bateram palmas na porta de casa. Corri para atender. Era minha amiga Marlene, que possuía telefone, e vinha nos avisar da morte do Odair, ocorrida às quatro horas da madrugada. O corpo dele foi velado, primeiramente no CRUSP e depois em nossa casa, que mal podia comportar o grande número de pessoas, na maioria estudantes.”

Neste ponto pede-se licença para um rápido tomar de fôlego de nossa narradora, introduzindo breve complemento, noticiado pelo jornal “O Estado de São Paulo”, na edição de 09/09/1967 com o subtítulo de “Calma e Tristeza”:

Ninguém falava ontem no CRUSP sobre o novo regulamento. É que os estudantes velavam, no Centro de Vivência, o corpo de Odair Nascimento, aluno do 3º ano de Pedagogia que falecera na madrugada, no Hospital das Clínicas. Odair sofrera, no dia 1º um acidente de automóvel e passara uma semana em estado de coma.

Nesse clima de trégua tensa, que permeava o campus da mais importante universidade brasileira, a singela notícia de “O Estado” proporcionava um forte contraste simbólico entre a calmaria daquele dia, em contraposição aos anteriores de violenta agitação; o choque do aguerrido militante trotskista, contra sua gênese na humildade pacifista franciscana.

O fato é que a morte do Odair, por caminhos ainda insondáveis e, pelo menos por momentos respeitosos, apaziguara os irrequietos estudantes cruspianos.

Retornando ao depoimento, Odila completa registrando que: “O sepultamento aconteceu no dia seguinte, no Cemitério Bela Vista, de Osasco, próximo à nossa casa.”

Odair: Uma imagem para lembrar

Odair: Uma imagem para lembrar

 

VI – Epílogo a Completar

Pouco depois do enterro de seu irmão, Odila, numa espécie de missão autoimposta – que só fez crescer ao longo do tempo – começou a recompor circunstâncias e fatos, para chegar à verdade. Precisava entender e conhecer os reais acontecimentos, trazendo assim algum alívio à traumatizada família, em especial à mãe, atualmente passando dos 90 anos. A memória do Odair, por sua vez, exigia e também merecia isso.

E Odila, retoma a narrativa: “Um dia, um dos estudantes que, de vez em quando, nos visitavam trazendo solidariedade espiritual e até material, me disse que eu precisava ir buscar as coisas do Odair, no CRUSP. Fui até lá, com uma colega de escola. Encontramos o Bloco Verde E-509 e esperamos alguém aparecer no térreo. Não pudemos subir, nem explicaram claramente a razão. Seus antigos colegas nos entregaram duas malas: nelas muitos livros, um caderno pequeno, uma blusa de frio, verde, uma caneta, barbeador e outras miudezas. Os livros eram sobre Marx, Lênin, Mao Tsé-Tung… Apesar de eu gostar de ler, nunca me senti estimulada para a leitura desses livros. Não sei se meu pai leu algum deles. Um dia, já morando em Botucatu, os doei à Biblioteca Municipal.

Passados alguns meses, soube pelo papai que meu tio Djalma, seu irmão, telegrafista que trabalhava numa Delegacia de Polícia, em Osasco, tentou ver a “ocorrência ou inquérito” na repartição policial onde fôra registrado o acidente. Nada encontrou e ainda informou papai que o caso já tinha sido arquivado. Assim, tudo que nos restou, foram os relatos imprecisos da Cora e seu pai. Dilson o terceiro ocupante do carro nunca foi visto por ninguém de nossa família.

Entre os amigos do Odair que continuaram nos visitando lembro do Facundo (falecido), Deusa, Cezira Tengan, Elson Delmudes, Primo Brandimiller, Maria José, Clodoaldo…”

O tempo foi passando e ao longo dos anos seguintes a família continuou pesquisando em busca da verdade: USP, DOPS, internet… sempre sem resultados mais concretos ou conclusivos.

Após décadas, durante o Governo Lula, Odila contatou o Ministro José Dirceu, líder contemporâneo de seu irmão, nos mesmos movimentos estudantis, solicitando ajuda para a busca sem fim. O chefe da Casa Civil, pediu para a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) verificar a existência de possível material sobre o Odair, mas a resposta final foi mais um “nada consta”.

Hoje, Odila, juntamente com toda a família, têm a firme convicção de que o saudoso parente: “Foi um dos primeiros “eliminados” pela Ditadura Militar, porque tinha posição de liderança no meio estudantil.

A realidade, no entanto, mostra que para além das crenças íntimas dos familiares, continuam em aberto, várias e importantes questões sobre a movimentação do ex-seminarista de Frei Cosme, em seus últimos anos de vida. Mistérios a esclarecer, fatos a reordenar sobre o entorno em que ele evoluiu.

Ficando em apenas duas vertentes, valeria a pena aprofundar algumas linhas de pesquisas já em andamento. No campo mais pessoal, espiritual ou ideológico, a passagem do aprendizado de um cristianismo ortodoxamente franciscano, para a militância socialista trotskista. Ecos da Teologia de Libertação, muito em voga na época? Já no âmbito do acidente que prematuramente o vitimou poderia até se envolver a CNV – Comissão Nacional da Verdade, fazendo um caminho de avaliação crítica abrangente, para trás, a partir da análise do desastre e, em sendo o caso, dos três possíveis alvos ocupantes do fatídico fusca. Falha ou engano na operação? Alvo errado?

Essa nova imersão investigativa, a ser feita dentro das atuais realidades de acesso às informações, torna-se imperativa, em nome da continuação da luta da família pelo direito à verdade.

 

VII – Amigos e Memórias

João Batista Júnior (Juninho)

João Batista Júnior (Juninho)

Tanto em Guaratinguetá como em Agudos, era quieto, calado e observador. Nos últimos anos do ginásio já não ocultava tanto sua aguda inteligência. Tinha a capacidade de captar as explicações mais difíceis, com rapidez acima da média da classe.

 

José Albano Pereira Filho (Albanão / Zezão)

José Albano Pereira Filho (Albanão / Zezão)

No seminário o “Pintinho” era discreto e calado, mas já demonstrava para os amigos mais próximos da turma, sua queda para os temas políticos. Gostava de Juscelino Kubitschek, interessava-se e acompanhava tudo o que podia sobre política. Tinha sempre na ponta da língua, detalhes dos acontecimentos importantes, nomes de personalidades, partidos políticos e respectivas ideologias.

 

Francisco Gabriel Heidemann

Francisco Gabriel Heidemann

  • Colega de classe no seminário.
  • Mora em Florianópolis – Santa Catarina.

Cultivo a memória desse colega e amigo “calado, retraído, mas leitor voraz e fervilhando por dentro”!

Na terceira ala, em Agudos, em algum período entre 1961 e 1962, fui bibliotecário e testemunhei muitas vezes o quanto os livros o atraíam. Na sala de estudo, estava sempre concentrado e debruçado sobre algum livro. Às vezes também escrevia coisas em rolos de papel e compartilhava com os colegas em sua volta.

(Incluído em 13/07/2013)
 

Oscar Laragnoit Veiga

Oscar Laragnoit Veiga

Depois que o Odair “Pintinho” saiu do seminário, foi estudar na USP, ministrava aulas ajudando a família e era líder estudantil. Acompanhei todos esses fatos, porque ele frequentava muito (às vezes fugido ou escondendo-se das forças de repressão) a casa de meu tio Geraldo (falecido), que tinha um restaurante no bairro do Pari, em São Paulo.

 

German Aguirre Medeiros

German Aguirre Medeiros

A imagem que guardo do Odair está ligada ao apelido de “Pintinho” que recebeu no seminário, por ser miudinho, o menor da turma, mas que mesmo assim não levava os habituais petelecos reservados aos primeiros das filas. Era muito estimado entre os colegas e professores, por sua postura quieta, olhar baixo, discreto, sempre um pouco contraído, parecendo quase querer esconder-se. Um estilo bastante franciscano… Aproveito por meio do Site de Frei Cosme, para prestar meu respeito à memória do Odair, bem como solidarizar-me com a família, colocando-me à disposição para possíveis colaborações futuras, na quixotesca pesquisa empreendida por sua irmã Odila, nossa bem-vinda nova companheira de confraria.

 

Ondina Felisbino da Silva Pregnolatto

Ondina Felisbino da Silva Pregnolatto

  • Moradora contemporânea de CRUSP.
  • Estudante de História, na época, formou-se depois em Medicina.
  • Estava entre os 9 alunos suspensos pelo Reitor em 29/08/1967.
  • Viveu exilada na Bulgária de 1968 a 1980.
  • Mora em Campinas, ao lado da UNICAMP que a acolheu após o desterro.

Conheci o Odair, no CRUSP, quando nossos apartamentos, junto com os de outros estudantes foram marcados pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas), com a finalidade de nos aterrorizar. Não chegamos a ter tempo de construir uma convivência mais próxima. Éramos da Dissidência (do Partido Comunista), mas de tendências diferentes. Eu da linha chinesa, ele da soviética. Nas poucas vezes que nos cruzamos no campus, em assembleias ou reuniões de grupos mais fechados, dava para perceber características que o destacavam, algumas até raras em nosso meio. As impressões que me ficaram dele foram as de um menininho muito novinho, bonitinho, sempre reservado e com ar de bonzinho.

 

Odila Conceição do Nascimento

Odila Conceição do Nascimento

Desde menino ele era muito tímido e calado, embora tivesse um lado brincalhão ao divertir os irmãos, contando histórias, piadas e charadas.

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Comentários
  1. José Modesto Leite 12 de setembro de 2013 11:29 Responder

    Que alma boa!

    Tenho muito orgulho de ser primo do Odair, e, também, muitas dúvidas a respeito de sua morte, uma vez em que os outros ocupantes do veículo não sofreram praticamente nada (estranho, não?).

    O Odair era especial. No seminário ele era capaz de ler um livro de 100/200 páginas em um ou dois dias, e o mais interessante, sem ter feito curso algum de leitura dinâmica. Um segredinho: se o livro fosse bom, ele lia até durante a Santa Missa.
    Humildade franciscana, desapego total ao luxo e à riqueza, um verdadeiro espírito franciscano.

  2. Osmar Nascimento 2 de julho de 2013 16:20 Responder

    Caros amigos de Frei Cosme,

    Sou irmão de Odair e Odila. Fiquei muito feliz ao ler o relato sobre a vida de Odair. A narração reuniu, de forma muito profissional e sensível, as informações que nossa família havia pesquisado, além de outras trazidas pelos amigos de meu irmão. Eu sonhava em escrever essa história quando ela estivesse completa. Mas certamente eu não faria tão bem, e nem sei se chegaria a escrever. E talvez a trajetória de Odair vá permanecer em parte desconhecida.

    Parabéns pelo excelente trabalho! E muito obrigado!

    Abraço

    Osmar

    (071) 9957-6423, 3248-8636, 3254-5:228

  3. Olga Loyola 16 de junho de 2013 06:47 Responder

    Tinha quase 10 anos quando o perdemos. Só posso dizer que, de certa forma, ele sempre me guiou e guia.

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